Por: Ozias Alves Jr. | 1 mês atrás

Biguaçu amanheceu hoje (segunda, 05/10) com a notícia do falecimento de dona Terezinha Costa de Andrade, 69, professora e liderança da comunidade negra do bairro Prado, em Biguaçu.

Terezinha faleceu em casa vítima de uma embolia pulmonar e ataque cardíaco enquanto estava dormindo na madrugada de domingo (04/11). Não se sabe o horário do falecimento. Os familiares a encontram morta por volta do meio dia de domingo (04/11). Seu velório ocorreu na noite desse dia e seu enterro ocorreu às 9h de segunda (05/11), no cemitério de Biguaçu.

Terezinha, a memória viva da comunidade de afrodescendentes do município de Biguaçu, é filha do patriarca da mais numerosa família negra da região e também quase que uma zeladora da memória da comunidade.

No bairro Prado, vivem mais de 500 negros. São descendentes de escravos libertos pela Lei Áurea assinada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888 que migraram do interior de Biguaçu para vários lugares da Grande Florianópolis. Por estar situado bem próximo do centro de Biguaçu, o Prado foi o bairro preferido pelos negros. Por quê? Ficava mais próximo dos empregos. Os homens foram trabalhar na construção civil, estradas e serviços públicos. Já as mulheres foram atuar principalmente como domésticas.

A comunidade negra de Prado e Saudade (continuação do primeiro bairro) descende de quatro famílias. São os 1) Costa, 2) Vieira, 3) Silva e 4) Vicente. Há também os “Andrade”, “Souza” e “Passos”, entre outros, mas são famílias cujos sobrenomes vêm de homens que se casaram com mulheres das quatro famílias acima citadas. Vale lembrar que os negros adotaram- em sua grande maioria- os sobrenomes de seus antigos senhores do tempo da escravidão. Um estudo sobre os sobrenomes, quem sabe, dará pistas sobre o passado dessa etnia no município de Biguaçu.

Nos livros de história do município, muito pouco se escreveu sobre o passado dos negros e nada sobre essa comunidade hoje em dia. Então aqui um pouco da história desse gente que muito contribuiu para o desenvolvimento do município de Biguaçu. Vale lembrar obviamente trata-se de excelente tema para historiadores.

 

Família Costa

A família Costa é a mais numerosa entre a comunidade negra de Prado e do vizinho bairro de Saudade, em Biguaçu. Somam hoje mais de 397 descendentes, 90% dos quais residindo nos dois citados bairros de Biguaçu. Maioria deles reside no antigo Morro do Caseca (dúvida: aquele que fica atrás da Loja Dalva, no Prado, ou aquele onde hoje fica a Igreja Assembleia de Deus, no bairro Prado de Baixo?).

Essa família descende de Aurino Costa (1910-1995). Ele é o terceiro morador do Morro do Caseca. “Caseca” era o sobrenome do primeiro morador da região, um mulato que, segundo a comunidade, “tinha umas unhas muito grandes“.

Foi nesse morro do Caseca que o antigo delegado de polícia de Biguaçu, João Dedinho (1909-1991) observou navios do governo dando tiros contra Biguaçu durante a revolução de 1930, conforme registrou Raulino Reitz (1919-1990) em seu livro “Alto Biguaçu”(1988).

Nesse morro antigamente chamado de “Caseca” e hoje sem nome (como muitos lugares de Biguaçu), criou-se a família de Aurino Costa. Casado com Marina Setúbal Costa (1914-1971), Aurino teve 19 filhos. É daí a origem dos quase 400 descendentes entre filhos, netos, bisnetos e tataranetos que hoje vivem na região. Só dois filhos que foram morar fora, em Barreiros (São José) e Balneário Camboriú.

Marina Setúbal Costa é o nome da rua principal do Morro da Caseca. O nome foi dado pelo vice-prefeito de Biguaçu (gestão 1997-2000), Pedro Cardoso, quando foi vereador no seu primeiro mandato entre 1983 a 1988. A esposa de seu Aurino foi uma requisitada parteira no interior de Biguaçu. Ela eram quem fazia os partos da família Cardoso, entre eles o nascimento do próprio Pedro. Era a “didinha” (madrinha) de Pedro Cardoso e de muita gente da região.

Marina foi líder comunitária muito ativa no Prado e Saudade. Ela batalhou junto a políticos para a criação da primeira escola da região, a “Maria de Lourdes Scherer”. Filiada ao antigo PSD (partido que existiu no Brasil entre 1945 a 1965, rival da UDN), Marina foi cabo eleitoral dos então candidatos a prefeito de Biguaçu, David Corrêa (1903- 1995) (pai do prefeito entre 1997 a 2000, Arlindo Corrêa), e Avelino Müller (1912-1984). Era também conselheira espiritual, médium e benzedeira da comunidade. Quem ficava doente na região, a procurava para se benzer ou em busca de remédios caseiros a base de ervas.

Uma das filhas de dª Marina é Terezinha Costa de Andrade, que se tornou professora com formação em pedagogia pela Univali-Biguaçu. “Gostaríamos de alguém resgatar a nossa história, que é muito bonita“, defende Terezinha.

 

Corrida de cavalos dá a origem ao nome “Prado”

Qual a origem do nome do bairro “Prado”? Miguel Manoel dos Passos (in memoriam), grande amigo da família de Terezinha, conta que “Prado” veio de uma pista de corrida de cavalos que começava numa figueira e terminava depois do areal do terreno hoje conhecido como “Terreno do Carlinhos Goedert”, hoje importante empresário do ramo de terraplenagem em Biguaçu.

Aos domingos, os competidores reuniam-se na pista de 400 metros de extensão para apostar na corrida. Miguel Passos conta que por volta de 1953 ou 1954 a tradicional corrida de cavalos da região acabou porque a pista foi cortada pela BR-101, na época em obras.

O pessoal perguntava: você vai correr na ‘pista do Prado’? Aos poucos a gente passou a chamar a região de “Prado” porque antes não tinha nenhum nome. Aí o nome ficou”, conta Miguel. A pista ficava num “prado”.

A rua principal do Prado chamava-se 3 de Outubro, em homenagem à eclosão da Revolução de 1930 na qual Getúlio Vargas assumiu a Presidência da República. Mais tarde a rua foi rebatizada de “13 de Maio”. Não se sabe se foi em homenagem aos negros da região, mas coincidentemente 13 de Maio de 1888 foi a data que a Princesa Isabel assinou a famosa lei Áurea libertando os escravos no Brasil.

 

Time homenageia a Princesa Isabel

A comunidade negra de Prado/ Saudade tinha seu time de futebol. Chamava-se “Princesa”. O nome foi sugerido por Iodir Costa, filho de Aurino Costa (1910-1995) e irmão de Terezinha.

Iodir desejava chamar o time de “Princesa Isabel” em homenagem à libertadora dos escravos, mas os irmãos preferiram reduzir o nome para “Princesa”.

Nascido em 1980, o “Princesa Esporte Clube” foi um timão até ser dissolvido em 1998. Era o rival do outro time do bairro de Prado, o “Pradense”, ex-campeão de Biguaçu em 1999. A torcida do Princesa era conhecida por sua animação e seu grande número de torcedores com o mesmo sobrenome- Costa.

Quando o jogo começava, a torcida cantava: “O princesa acaba de chegar/ O Princesa é o dono do lugar/ E não é onda/ Não é bafo de boca/ É o Princesa chegando/ E deixando a torcida de água na boca“.

Já quando o time demorava para fazer gol, a mesma torcida cantava: “Princesa faça um gol/ Queremos aplaudir/ Princesa faça um gol/ Tua torcida está a pedir”. E quando o gol saía, cantava: “Princesa muito obrigado// por este gol que você nos deu/ Princesa muito obrigado/ O teu esforço prá muito valeu“.

O time acabou, mas a batucada da torcida acabou inspirando a formação de um grupo de pagode, o “Apogeu”.

 

MENSAGEM

Resquiescat in Pace! Descanse em Paz!

O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará.
Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas.
Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.
Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.
Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.
Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias.

Salmo 23:1-6

 

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