Por: Ozias Alves Jr. | 30/11/2018

SERESTA- Trata-se de um gênero musical das décadas de 1930 e 1940 que canta o amor e suas dores na alma. A seresta é uma releitura do século XX da “serenata”, música do século XVI.

Em Biguaçu teve numerosos adeptos. Na década de 1990, Netinho Borba, filho de Romuldo Borba, o “Marreco”, promovia as “Noites da Seresta”, no Clube Recreativo 17 de Maio.

Após a morte de Netinho, seus irmãos Agostinho e Ronaldo continuaram por um tempo a promoção desse evento, em que eram executados os mais clássicos desse gênero musical.

A reportagem do JBFoco de 14 de abril de 2006 intitulada “Comerciante nostálgico lembra do tempo da seresta em Biguaçu” revela detalhes da história dessa música no município. Aqui vai:

Fica comigo esta noite e não se arrependerás”. Esta canção da antiga cantora Joelma deixa o comerciante Valmor João de Melo, 72, nostálgico atrás do balcão de seu bar no bairro Vendaval, Biguaçu.

“ Ah, que saudade do tempo da seresta em Biguaçu”, diz Valmor, que mantém um costume: quando vai no cemitério dos Fundos para ver os túmulos de seus pais, ele dá uma passadinha no túmulo de Romualdo Borba (Marreco). “ Ele foi o maior cantor de seresta da história de Biguaçu”, salienta Melo.

Nascido em 20 de novembro de 1933, Valmir passou sua infância na rua 7 de Setembro. “Antigamente não tinha esse nome. Era chamado de riacho por causa de um riozinho onde as mulheres lavavam roupas. Esse riacho foi mais tarde tampado. Passava onde hoje fica a Apae”, observa.

E foi nesta antiga “rua do riacho” (hoje 7 de Setembro), que liga o centro de Biguaçu ao bairro Praia João Rosa, que Valmor montou seu primeiro bar, na década de 1960.

“Naquela época, antes da chegada do rock, a juventude gostava de seresta. Eram músicas melodiosas, que falavam de amores não correspondidos, de poesia, ternura, saudade, coisas que tocam fundo na alma”, observa o comerciante.

 “ Antigamente nos bares o pessoal tocava violão. Eu me lembro do falecido Orlando Galliani, conhecido seresteiro, que tocava no seu bar e em outros. Os seresteiros que se apresentavam nos bares eram o Luiz Borba, Miguel Flor, Marreco (Romualdo Borba), Orlando Galliani e outros que já estão tudo mortos ou a caminho”, diz.

“ Eu, o falecido Nilton da farmácia, o Zé Duque, que fazia gamelas no Morro da Boa Vista, éramos fãs de carteirinha que assistiam essas apresentações. É muita saudade”, observa. “ Hoje ninguém mais toca nos bares”, diz.

Ele explica que os bares não têm música ao vivo. “Se tiver, é rock e é estridente. Os vizinhos acabam reclamando. Na época da seresta, não tinha tanto barulho. Não dava problema com a vizinhança. Ela gostava do que escutava”, salienta o comerciante.

“ O gosto do jovem mudou radicalmente. Antes eles gostavam de escutar violão. Hoje querem guitarra. Seresta hoje é música de coroa”, observa.

“ O gosto mudou na década de 1960 quando apareceu a Jovem Guarda, com o Roberto Carlos, Vanderléia, Erasmo Carlos e cia. Os jovens passaram a gostar mais de rock e seresta, a música antiga, passou a ser encarada como música de velho”, diz Valmor.

“ Pode crer no que eu vou dizer: tudo muda, inclusive o gosto musical. Antes era seresta, aí veio o rock; década passada o pessoal curtia lambada, pagode. Daqui a 10 ou 20 anos, a juventude deverá gostar de alguma música bem diferente em comparação a de hoje”, salienta.

 “Não sei mexer em internet. O Júlio Ramos volta e meia vem aqui no meu bar no Vendaval. Toca um violão. Lembra as antigas serestas. Ele grava para mim da internet muitos antigos cantores daqueles tempos que eu gosto muito- Orlando Silva, Marta Mendonça, mulher do Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, entre outros. Por falar em Nelson Gonçalves, eu me lembro, isso foi em 1989 ou 1990, quando ele esteve cantando aqui em Biguaçu, no clube 17 de Maio. O Romualdo Borba cantou com ele. Foi inesquecível”, lembra Valmor.

A seresta foi uma música de bar, cantada sem maiores pretensões que não o do entretenimento entre amigos.

O advogado Pedro Paulo dos Santos é autor da crônica “Bar da Saudade”, que foi publicada pelo JBFoco, mas, por algum motivo desconhecido, não se encontrava arquivo no “Google Desktop”. Portanto, fico devendo a data de quando foi publicada.

A crônica em questão, que reúne história e um certo toque de poesia, revela quem foi quem nesse gênero de música em Biguaçu. Confira:

Estava na companhia do seu Ayres, seu Nilson e do seu Nininho, vindos da Armação. Parei na praça (Nereu Ramos) e ouvi a música que provinha de um bar nas proximidades.

Aproximei-me e vi sentados à mesa e tocando o Seu Ernestino na gaita, Orlando Galliani, no cavaquinho e meu Pai (Miguel Flor), no violão. Sentei-me numa mesa onde já estavam o Pedro Azevedo e o Altamiro Trajano, tomando uma gelada e batucando na mesa, e fiquemos ouvindo. O sanfoneiro tocava um chorinho de Pixinguinha, se não me engano era o “Vê se Gostas”.

Servindo as mesas, fazendo às vezes de garçon com uma toalha aos ombros, meu tio João Lisboa, sempre com uma citação de improviso na ponta da língua.

Terminada a música, seu Nilson pediu a meu pai que cantasse a música da professorinha, que é o samba “ Meus Tempos de Criança”, de Ataulfo Alves, ao terminar esta, o seu Orlando, que já havia afinado o cavaquinho, pediu uma valsa e saiu “Saudades de Laguna” do catarinense Pedro Raimundo.

Pararam um pouco e logo em seguida entrou no bar o Marreco, naquele seu jeito empolgado de cantar, tentando imitar Nelson Gonçalves, sacando “Não eu não posso lembrar que te amei”, e sentou-se junto ao grupo.

Daí um pouco, chegou o Reduzino, com um pandeiro na mão e já começou a cantar um samba do Adoniram Barbosa que diz “Joga a chave meu bem”.

O grupo seguia animado e na outra parada para um descanso, eis que adentra a porta, tocando o violão naquele seu estilo barulhento o Luiz Borba e cantava “La Malagueña” – “Que bonitos ojos tienes”, juntou-se ao grupo e a seresta prosseguia. Dando mais um descanso, aproxima-se de mansinho, também trazendo um violão, o Zé Alberto e já sapecou um samba do Paulinho da Viola – “Pagode do Vavá”.

Qual não foi minha surpresa, quando chegou ao grupo o seu João Monteiro (o Pelha), tocando o “Tico tico no fubá”, e pasmem, não é que o seu Ciano também chegou com sua gaita vermelha, e lascou uma valsa, que se não me engana era a “Branca”.

Seu Ernestino chamou o seu Ayres para perto e mandou que puxasse também sua sanfona, o que ele fez e tocou um samba, cantado por meu pai e que era a “Flor e o espinho” do Cartola, começando assim: “Tira do teu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”.

E a noite prosseguia, animada, festiva, com todos cantando e se divertindo. Até que um fato curioso aconteceu, de repente o Tio João não veio mais servir as mesas, o Pedro Azevedo saiu dizendo que tinha um compromisso e que já ia embora, o Altamiro, falou alguma coisa sobre uma viagem para o sul e que não poderia continuar ali.

O Marreco se despediu dizendo que tinha de se preparar para uma pescaria, o Luiz Borba, por sua vez saiu para atender alguém que lhe chamava lá fora e não voltou, o seu Ernestino deixou a gaita em cima da mesa e deu uma saída, o Zé Alberto também se retirou, o Reduzino arranjou uma desculpa e deixou o pandeiro sobre a mesa e se afastou.

Também não entendi porque meu pai, o seu Orlando e o seu Ciano saíram para conversar, sem nada dizer aos outros e deixaram os instrumentos também largados por ali.

Como só restavam eu e os meus amigos lá da Armação, levantamos e os levei para casa. Ao retornar a Biguaçu, intricado com o acontecido fui procurar o dito bar e não achei mais nada, apenas ouvia ao longe vozes cantando seresta e por mais que procurasse não conseguia identificar de onde elas vinham, só que eram as mesmas de poucos minutos antes.

Foi aí que percebi o ocorrido, meu amado pai, e nossos queridos amigos agora estavam fazendo seresta do outro lado, cantando e animando as noites por lá, enquanto por aqui, elas vão ficando mais tristes, mais pesadas, mais saudosas.

Fico até imaginando, eles cantando e o meu xará sentado à porta do céu, olhando aquela manezada e pedindo para cantarem mais uma.

Ao retornar para casa, um pedaço de madeira pintada, jogada no chão, chamou minha atenção, aproximei-me e li o que estava escrito, e nela dizia: “BAR DA SAUDADE”.

Não precisa dizer que acordei com os olhos cheios de lágrimas.

 

Ozias Alves Jr

E-mail: reportagemjbfoco@gmail.com

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